Urânio em pó nas Minas da Urgeiriça
Na Mina da Urgeiriça, os portugueses extraíam rádio para as experiências e utilizações práticas que lhe davam os cientistas das primeiras décadas deste século. Portugal deitava fora, para o Atlântico, através do Mondego, o urânio que não servia para nada até à Guerra.
Em 1945, a bomba atómica tornou o minério importante, a era nuclear enriqueceu a Urgeiriça e a exploração do urânio fez-se intensivamente pelos métodos tradicionais. Hoje e desde 1962, processos químicos de extracção substituem, em parte, o trabalho de desmonte do filão, mas o urânio continua a dar dinheiro. Nem se sabe quanto!...
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terça-feira, maio 08, 2007
sábado, maio 05, 2007
Jornal o Diário - VI

Junta de Freguesia de Canas: «Vamos lá ver…»
«Quer eu, quer a assembleia de Freguesia encaramos com bons olhos a passagem a concelho de Canas de Senhorim, pela independência que isso nos dará»- diz-nos o presidente da Junta de Freguesia de Canas, Valdemar Ambrósio, recentemente empossado no cargo.»
Que apoio dará a nova Junta ao Movimento para a Restauração do Concelho? pergunta-mos. Valdemar Ambrósio hesita e responde:«todo o apoio ao nosso alcance». E depois acrescenta: «o apoio que a anterior Junta deu foi fazer parte da própria comissão. Nós não vamos para o movimento; eles já têm os seus elementos. Dar-lhes-emos todo o apoio oficial que for necessário».
Não conseguimos saber em que é que se traduzirá tal apoio porque o presidente da junta prefere falar de outros temas. Para a questão de Canas a concelho, remete-nos para o movimento de moradores: «se o movimento já existe não é a Junta que terá uma actividade paralela…».
«Esta freguesia tem grandes carências», diz Jorge Figueiredo, membro da Assembleia de Freguesia, também eleito pelo PS. «Não tem saneamento nem água…Só a sede da freguesia tem esgotos. Contamos que em breve tenha também água ao domicílio».
Promessas da Câmara? «Não. Penso que isso vai ser uma realidade»,
«Quer eu, quer a assembleia de Freguesia encaramos com bons olhos a passagem a concelho de Canas de Senhorim, pela independência que isso nos dará»- diz-nos o presidente da Junta de Freguesia de Canas, Valdemar Ambrósio, recentemente empossado no cargo.»
Que apoio dará a nova Junta ao Movimento para a Restauração do Concelho? pergunta-mos. Valdemar Ambrósio hesita e responde:«todo o apoio ao nosso alcance». E depois acrescenta: «o apoio que a anterior Junta deu foi fazer parte da própria comissão. Nós não vamos para o movimento; eles já têm os seus elementos. Dar-lhes-emos todo o apoio oficial que for necessário».Não conseguimos saber em que é que se traduzirá tal apoio porque o presidente da junta prefere falar de outros temas. Para a questão de Canas a concelho, remete-nos para o movimento de moradores: «se o movimento já existe não é a Junta que terá uma actividade paralela…».
«Esta freguesia tem grandes carências», diz Jorge Figueiredo, membro da Assembleia de Freguesia, também eleito pelo PS. «Não tem saneamento nem água…Só a sede da freguesia tem esgotos. Contamos que em breve tenha também água ao domicílio».
Promessas da Câmara? «Não. Penso que isso vai ser uma realidade»,
diz o presidente da Junta.«O que se verifica-acrescenta-é que todas as infraestruturas faltam no concelho. Constroem mais na sede de concelho e pensamos que há uma má gestão de dinheiros».
Os autarcas de Canas de Senhorim dão como exemplo o concelho vizinho de Carregal que, com menos recursos, fez muito mais obras de interesse que as populações, dotando as aldeias de esgotos, água e luz.
Vista de olhos
Valdemar Ambrósio responde depois a perguntas sobre os seus planos à frente da freguesia e diz:
«Passei uma vista de olhos pelo plano de obras que foi aprovado na Junta e parece-me razoável; pouco mais haverá a acrescentar». São essas obras a «distribuição de água, posta a funcionar» e o problema de «uma nova sede para a Junta». Jorge Figueiredo lembra que a «actual sede não dá sequer para reunir a Assembleia de Freguesia» porque se trata de uma assoalhada de 20 metros quadrados, mais ou menos.
«A construção da nova sede não é uma obra fácil. O que vamos fazer este ano é iniciá-la; não construí-la, porque são precisos uns 12 ou 13 mil contos para pôr todo o projecto em prática», esclarece Valdemar Ambrósio.
A Junta de Freguesia, embora a instalação da autarquia seja a competência do Poder Central e da Câmara de Nelas, «vai contar com as verbas que aparecerem para dar execução ao plano, designadamente com os mil e tal contos que são distribuídos a Canas».
Os autarcas de Canas de Senhorim dão como exemplo o concelho vizinho de Carregal que, com menos recursos, fez muito mais obras de interesse que as populações, dotando as aldeias de esgotos, água e luz.
Vista de olhos
Valdemar Ambrósio responde depois a perguntas sobre os seus planos à frente da freguesia e diz:«Passei uma vista de olhos pelo plano de obras que foi aprovado na Junta e parece-me razoável; pouco mais haverá a acrescentar». São essas obras a «distribuição de água, posta a funcionar» e o problema de «uma nova sede para a Junta». Jorge Figueiredo lembra que a «actual sede não dá sequer para reunir a Assembleia de Freguesia» porque se trata de uma assoalhada de 20 metros quadrados, mais ou menos.
«A construção da nova sede não é uma obra fácil. O que vamos fazer este ano é iniciá-la; não construí-la, porque são precisos uns 12 ou 13 mil contos para pôr todo o projecto em prática», esclarece Valdemar Ambrósio.
A Junta de Freguesia, embora a instalação da autarquia seja a competência do Poder Central e da Câmara de Nelas, «vai contar com as verbas que aparecerem para dar execução ao plano, designadamente com os mil e tal contos que são distribuídos a Canas».
Esta verba, decorrente da aplicação da Lei das Finanças Locais, é «insuficiente, porque os autarcas agora já ganham ordenado e, com um funcionário, vai-se o dinheiro todo».
As queixas do povo de Canas ultrapassam a Junta de FreguesiaCercada de Comboios
Outro grande problema de Canas de Senhorim é o cerco que lhe fazem as linhas férreas. De Canas só se vai atravessando passagens de nível; a Canas só se chega passando a linha do comboio. Este «cerco» crias graves perigos pois nem todas as passagens têm guarda. Por outro lado, as que têm sinalização ou cancelas são fronteiras que criam grandes atrasos na vida dos camponeses, obrigando-os a longas esperas, enquanto as composições não passam ou não param de executar manobras.
«Precisamos muito de uma passagem superior sobre a linha férrea para nos dar, pelo menos uma saída fácil da vila. Sabemos que a Câmara deve andar a tratar do caso e, por nosso lado, pressionaremos no sentido de esta se concretizar rapidamente», diz Valdemar Ambrósio.
O problema escolar também se sente na freguesia. «Quanto as escolas primárias estamos bem fornecidos», diz o presidente da Junta, «mas a pré-primária funciona na Casa do Povo pessimamente, sem recreio nem condições mínimas para este nível de ensino».
«Também a Póvoa de Santo António precisa de um estabelecimento para a pré-primária», recorda Jorge Figueiredo, sublinhando em seguida que já se iniciaram as terraplanagens para a construção de uma escola do ciclo preparatório.
A conversa salta do ensino para a cultura e o presidente da Junta de Canas afirma que «dentro das disponibilidades daremos o apoio que pudermos à Lapa do Lobo, à Póvoa, aos Bombeiros, às colectividades que desenvolverem iniciativas culturais e desportivas».
Por fim, o diálogo volta à questão do concelho. É inevitável. Perguntamos a Valdemar Ambrósio se o facto de ter um presidente da Câmara de Nelas eleito também pelo Partido Socialista lhe facilitará a vida na presidência da Junta. E ele diz: «Isso facilita, mas o PS não está sózinho na Câmara….»
«Precisamos muito de uma passagem superior sobre a linha férrea para nos dar, pelo menos uma saída fácil da vila. Sabemos que a Câmara deve andar a tratar do caso e, por nosso lado, pressionaremos no sentido de esta se concretizar rapidamente», diz Valdemar Ambrósio.
O problema escolar também se sente na freguesia. «Quanto as escolas primárias estamos bem fornecidos», diz o presidente da Junta, «mas a pré-primária funciona na Casa do Povo pessimamente, sem recreio nem condições mínimas para este nível de ensino».
«Também a Póvoa de Santo António precisa de um estabelecimento para a pré-primária», recorda Jorge Figueiredo, sublinhando em seguida que já se iniciaram as terraplanagens para a construção de uma escola do ciclo preparatório.
A conversa salta do ensino para a cultura e o presidente da Junta de Canas afirma que «dentro das disponibilidades daremos o apoio que pudermos à Lapa do Lobo, à Póvoa, aos Bombeiros, às colectividades que desenvolverem iniciativas culturais e desportivas».
Por fim, o diálogo volta à questão do concelho. É inevitável. Perguntamos a Valdemar Ambrósio se o facto de ter um presidente da Câmara de Nelas eleito também pelo Partido Socialista lhe facilitará a vida na presidência da Junta. E ele diz: «Isso facilita, mas o PS não está sózinho na Câmara….»
in Jornal o Diário, 28 de Janeiro de 1983
sábado, abril 14, 2007
Jornal o Diário IV (continuação)
Como fica Nelas?
«Foi tendência do liberalismo», diz João Leandro Rodrigues. «Foi com o constitucionalismo que perdemos o concelho». «Mas Canas tem condições tão extraordinárias», diz Edgar Figueiredo, «que apesar de não ser concelho e ter sido sempre marginalizada, explorada e humilhada pelos mandatários concelhios, conseguiu superiorizar-se em todos os campos, pela exploração das condições naturais».
Uma das acusações feitas aos canenses pelos homens de Nelas é o de estes quererem, com a independência, o desmoronamento do concelho de Nelas. O que diz acerca disto o responsável pelo Movimento para a Restauração Município Canense?
«Diz que é falso. Fizemos um estudo e ele indica-nos que, se sair esta freguesia do concelho de Nelas, este concelho ficará ainda com um rendimento superior ao do vizinho Carregal do Sal, por exemplo».
E do Carregal, em comparação com Nelas, se continua a falar: «Com um rendimento inferior, o Carregal do Sal foi de todos o que melhor dotou as populações de infra-estruturas, no distrito de Viseu». (A alfinetada para Nelas:) «Não tem estátuas ao escansão, nem luzes sumptuosas e avenidas e estádios. Têm água e esgotos. Não esbanjam os dinheiros públicos….»
As administrações municipais nelenses são o principal alvo dos homens de Canas-a-Concelho. «Não temos nada contra a população de Nelas. Achamos até que ela também é prejudicada por estas más administrações. Em vez de água no verão deram-lhe luzes, cinco minutos de água e meia hora de vento!»
«Quando formos concelho», diz Edgar Figueiredo , «aceitamos perfeitamente uma federação dos três municípios. Nelas, Canas e Carregal. Somos vizinhos e estamos entre o Dão e o Mondego, ocupando as terras de Senhorim. Havemos de nos dar bem ».
Ao fim ao cabo, reafirmam, «queremos é que nos dêem o concelho que já tivemos, queremos gerir a riqueza que produzimos e aproveitar com isso». Vêm depois os números que damos em separado para não carregar a prosa e partimos à conversa com alguns canenses.
«Foi tendência do liberalismo», diz João Leandro Rodrigues. «Foi com o constitucionalismo que perdemos o concelho». «Mas Canas tem condições tão extraordinárias», diz Edgar Figueiredo, «que apesar de não ser concelho e ter sido sempre marginalizada, explorada e humilhada pelos mandatários concelhios, conseguiu superiorizar-se em todos os campos, pela exploração das condições naturais».
Uma das acusações feitas aos canenses pelos homens de Nelas é o de estes quererem, com a independência, o desmoronamento do concelho de Nelas. O que diz acerca disto o responsável pelo Movimento para a Restauração Município Canense?
«Diz que é falso. Fizemos um estudo e ele indica-nos que, se sair esta freguesia do concelho de Nelas, este concelho ficará ainda com um rendimento superior ao do vizinho Carregal do Sal, por exemplo».
E do Carregal, em comparação com Nelas, se continua a falar: «Com um rendimento inferior, o Carregal do Sal foi de todos o que melhor dotou as populações de infra-estruturas, no distrito de Viseu». (A alfinetada para Nelas:) «Não tem estátuas ao escansão, nem luzes sumptuosas e avenidas e estádios. Têm água e esgotos. Não esbanjam os dinheiros públicos….»
As administrações municipais nelenses são o principal alvo dos homens de Canas-a-Concelho. «Não temos nada contra a população de Nelas. Achamos até que ela também é prejudicada por estas más administrações. Em vez de água no verão deram-lhe luzes, cinco minutos de água e meia hora de vento!»
«Quando formos concelho», diz Edgar Figueiredo , «aceitamos perfeitamente uma federação dos três municípios. Nelas, Canas e Carregal. Somos vizinhos e estamos entre o Dão e o Mondego, ocupando as terras de Senhorim. Havemos de nos dar bem ».
Ao fim ao cabo, reafirmam, «queremos é que nos dêem o concelho que já tivemos, queremos gerir a riqueza que produzimos e aproveitar com isso». Vêm depois os números que damos em separado para não carregar a prosa e partimos à conversa com alguns canenses.

Tudo mais perto
Alberto Borges da Costa, comerciante, diz «que precisamos do concelho para a terra evoluir» e que «já se conseguiu fazer alguma coisa».
Para construir a sua casa de pasto, Alberto Costa «esteve à espera nove ou dez meses».
Para o pagamento de contribuições, para o recurso aos serviços oficiais «é preciso ter carrinho e ao preço da gasolina!...»
Com a Câmara em Canas de Senhorim, «ficava tudo mais perto; as coisas nas terras é como o código postal», conclui. Antigamente, para ir ao banco ia a Mangualde ou Viseu. «Agora, a dois passos, deposito o dinheiro ou meto um empréstimo. É o bem de ter as coisas à mão».
João Duarte, comerciante de Vale de Madeiros também é peremptório: «Ficava tudo mais perto e não éramos tão marginalizados em Vale de Madeiros. O povo que contribui tem direito a ver frutos das suas contribuições». E em Vale de Madeiros não se vê nada, acrescenta.
Para António Mendes Borges, outro comerciante de Canas, «a independência dava para nós vermos o futuro com melhores olhos», e para o alfaiate Joaquim do Couto «o dinheiro que sai do nosso trabalho deve reverter a nosso favor».
João Pereira da Silva gastou 360 escudos de táxi para registar um cão de caça que possui. Até isso lhe seria poupado pelo novo município.
A guerra do rápido
A estação ferroviária de Canas-Felgueira é a terceira do País em mercadorias expedidas pela CP. Porém, os canenses não têm direito a um minuto de paragem dos comboios rápidos da Beira Alta.
Este é um dos pontos da guerra de Canas. Os seus habitantes afirmam que a CP ganhou centenas de milhares de contos em 1981 só com os produtos transportados pela Companhia Portuguesa de Fornos Eléctricos. Prova disso é a entrega de mais de 5500 contos de bónus feita pela CP à referida empresa.
«Será que a população que dá os operários que produzem as mercadorias com que a CP ganha milhões não tem direito a um minuto de paragem do rápido?», perguntam-nos à porta da estação ferroviária.
«ainda por cima, os comboios param aqui para se cruzarem. Não podiam tornar esta paragem efectiva, vendendo bilhetes?», voltam a perguntar os canenses.
A CP responde que a paragem dos semi-directos em Canas é «economicamente inviável». «Quais são, então as viáveis?», perguntam em Canas. «Nelas, Carregal, Fornos de Algodres, Celorico ou Gouveia? Nenhuma destas estações se compara em movimento, movimento e tráfego à de Canas-Felgueira!»
E os canenses chamam ainda a atenção da CP e da opinião pública para o facto de a sua estação servir as termas da Felgueira, a estância de repouso da Urgeiriça e ainda as freguesias de Carvalhal, de Santar e as Termas de S. Gemil no concelho de Tondela.
«Não se percebe que uma pessoa de Canas tenha de gastar mais num carro de praça que a leve de e para Canas a partir da paragem mais próxima de um comboio rápido do que gasta num bilhete de ida e volta para Coimbra», dizem-nos.
«As pessoas que vão a banhos para a Felgueira ficaram perplexas e revoltadas com a passagem da estação de Canas, que utilizavam, à condição actual de apeadeiro».
Apresentam-se números: em 1980 foram vendidos na estação quase 21 mil bilhetes de comboio e foram expedidos de Canas mais de 5500 vagões de mercadorias. E diz-se mais: a não paragem dos rápidos da Beira em Canas determinou já a disputa entre várias empresas de camionagem no sentido de escoarem o tráfego existente para Lisboa.
Uma dessas empresas vendeu só no mês de Julho de 1982, só em Canas, 297 bilhetes para Lisboa.
«Canas tem (ou não) razão?» perguntam os canenses
in Jornal o Diário, 28 de Janeiro de 1983
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segunda-feira, abril 09, 2007
Jornal O Diário (III)
“Canas merece recuperar o concelho”-afirma o movimento para a Restauração do Município
Pela sede do concelho
Canas foi sempre esquecida
Façamos o que pudermos
Para lhe dar nova vida
(António Pedro Pega, 10 anos – Escola Primária de Canas de Senhorim)
A vontade de ser concelho e de se tornar independente da administração de Nelas, está enraizada na população de Canas de Senhorim que fala abertamente da questão, com humor cruel ao chamar avenida de Nelas a um caminho enlameado, com amargura ao mostrar a sua Escola Técnica do Dão que, por «razões políticas», não leva o nome da terra onde está implantada.
Da velha senhora Emília que mora na Rua do Paço à miudagem da primária de Canas todos fazem fincapé na recuperação do município perdido há cento e tal anos. É natural que haja um ou outro canense satisfeito com o actual vínculo administrativo mas não se manifesta.
A sala da Junta de Freguesia, uma assoalhada pequeníssima, mal comporta os jornalistas e os homens do Movimento para a Restauração do Concelho que se reúnem para dar a entrevista.
O advogado Edgar Figueiredo surge como líder do grupo formado por João Rodrigues Leandro, Luís Marques, Francisco Custódio Marques, António João e Arlindo Oliveira, entre outros. Mas não é o líder – serve apenas de porta-voz nesta conversa.
O movimento tinha estado na véspera a falar com os grupos parlamentares da Assembleia da República. Trocara impressões com os deputados da Nação, acerca da Lei-Quadro de formação de municípios e tentara que o seu problema fosse agendado com o de Vizela. Não conseguiram e, se calhar, foi melhor assim, uma vez que a direita chumbou no Parlamento as aspirações dos vizelenses, como cortaria está visto, as dos canenses.
Estes mostraram-se mais moderados na forma de reivindicar, em relação a Vizela, «Mas se Vizela ganha por usar de maior violência, nós aprendemos, diz Edgar Figueiredo.
Concelho Rico
«Não é só o facto de Canas de Senhorim ser a principal freguesia do distrito de Viseu. O próprio povo sente, quer ser concelho! Produzimos grande parte da riqueza do distrito e da Beira Alta. Temos direitos!», acrescentam.
O rendimento por cabeça no concelho de Nelas era em 1970 de 176 contos e participava no produto interno bruto com 2700 milhares de contos, enquanto que o mesmo número referente a todo o distrito era de 5,9 milhões de contos. Por isso, dizem os canenses que «vivem no concelho mais rico do País e ao mesmo tempo no concelho mais pobre.»
Estarreja tem um rendimento per capita de 130 contos; a Figueira da Foz tem 82 contos e, por exemplo o Barreiro tem 60 contos em 1970», explica Edgar Figueiredo. «Somos ricos e pobres por aquilo que tiveram oportunidade de ver: somos uma colónia sem direito a esgotos, sem direito a água, sem direito a uma sede de Junta condigna.
«Temos uma estação ferroviária que ora é a 2ª, ora é a 3ª em rendimento para a CP. Os rápidos não param aqui. A Câmara de Nelas, entretanto está a gastar dezenas de milhares numa estrada de 20 metros de largo para ligar a sede de concelho às Caldas da Felgueira, quando todo o trânsito para as termas se faz por Canas, numa estrada deteriorada propositadamente, quando a estrada que liga Canas à Aguieira tem quatro metros de lado e dá acesso a todos os trabalhadores dessas terras que vêm trabalhar em Canas.
Degradar
O Movimento para a Reconstrução do Concelho afirma que «Nelas faz tudo para degradar a nossa terra; aponta zonas industriais para zonas longe da estação de caminhos de ferro; faz obras de fachada na sede de concelho e deixa-nos sem nada».
Edgar Figueiredo e seus pares falam, a título de exemplo, da história de um emigrante que ganhou a lotaria na RFA. Quis fazer uma casa em Canas e a Câmara de Nelas negou-lhe tal direito afirmando que a habitação pretendida pelo canense não cabia no terreno que este possuía.
«Venha construir isso aqui em Nelas que a gente até lhe dá o terreno», dizem os homens de Canas que a Câmara de Nelas disse ao emigrante. E só o bairrismo do construtor impediu que a magnifica casa fosse parar fora de Canas de Senhorim. O emigrante teve que recorrer aos serviços urbanísticos de Viseu, afirmam.
As raízes históricas vêm, então à baila e Edgar Figueiredo, auxiliado pelos seus companheiros, vai explicando que é «uma povoação muito antiga, Canas de Senhorim. Tem foral de D. Sancho I, de 1186, confirmado por D. Manuel em 1514. Foi concelho até 1852, recuperado em 1866 e perdido no 1º de Janeiro do ano seguinte».
Nelas, o adversário, «não tem tradições municipalistas. Canas já tinha dois forais quando foi elevada a sede de município».
Números
Canas de Senhorim remunera anualmente os seus trabalhadores com 355 mil contos de salários e contribui para a previdência social com 101 mil contos anuais.
A exportação de produtos da Freguesia traz ao país centenas de milhares de contos de divisas. O estado arrecada todos os anos 89 mil contos com impostos cobrados em Canas, isto é, mais do que em qualquer dos concelhos do distrito. O novo concelho ficaria com seis freguesias, cerca de 10 mil habitantes e 65 quilómetros quadrados de área. (números de 1980, fornecidos pelo movimento pró-concelho)
A exportação de produtos da Freguesia traz ao país centenas de milhares de contos de divisas. O estado arrecada todos os anos 89 mil contos com impostos cobrados em Canas, isto é, mais do que em qualquer dos concelhos do distrito. O novo concelho ficaria com seis freguesias, cerca de 10 mil habitantes e 65 quilómetros quadrados de área. (números de 1980, fornecidos pelo movimento pró-concelho)
in Jornal o Diário, 28 de Janeiro de 1983
continua......
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